quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

lá fora

vou só ali ver o que não está aqui. há sempre esperança lá fora

rir para dentro

o meu namorado diz que as minhas piadas o fazem rir para dentro. as dele são melhores, defende, blá, blá, recorrendo a argumentos rebuscados, porque as dele fazem rir para fora. Gosto das dele, não posso dizer o contrário, porque é a mais pura das verdades, mas gosto também das minhas. as minhas piadas engolem-se.

quem te avisa

- hey, desculpe, tem o bolso da mochila aberto.
Disse-o com firmeza. Senti que estava a ser interrompida bem no meio de um pecado XL.
- obrigada, não tinha dado conta.
Encolhi-me. Foi a forma como se dirigiu a mim. Havia sobranceria. Estaria eu a cometer um erro, a dar abertura à actuação dos bandidos. A partir dali, disseminar-se-iam que nem bactérias. Foi uma sorte ainda não me terem enfiado as mãos na mochila e levado de lá o lenço das mãos amarrotado.
Segui-o enquanto subia as escadas. Fiquei atrás dele.
Uma reviravolta. O senhor que apanha descuidados tinha duas belas nódoas redondas, uma maior do que a outra, lado a lado, nas calças, na parte lateral do rabo.
- hey, tem duas nódoas nas calças, onde se senta.
Não lhe consegui dizer.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

lisboa marroquina

o calor aperta-me mais do que a saia
que saia de mim este calor
de mim

terça-feira, 26 de julho de 2016

Ar fresco

em dias de calor, abro a janela e quero que a rua entre cá em casa
que venha ela, sem ruídos de motores,
cheiros de óleo queimado
dos novos restaurantes da vizinhança,
que venham apenas os chilreares dos pássaros
a minha gaiola é a tua gaiola

domingo, 3 de julho de 2016

partiu-lhe a asa

partiu-lhe a asa
mas ela nadou na mesma
partiu-lhe a asa
partiu-lhe a casa
partiu-lhe o vidro
partiu-lhe a dor
ao meio

sábado, 2 de julho de 2016

A3

Quando preciso de pensar
imprimo em A3
e lá vou eu mergulhar
no papel,
sem margens,
espaço liberto
de letras e vírgulas,
que branco,
finura da exactidão,
ai se o meu amigo Luís
soubesse,
deserdava-me,
claro

dobradiças

as dobradiças permitem
às portas
ser portas
sem deixarem de ser
espaço de
passagem
as dobradiças
gostam de parafusos
como os parafusos
gostam de chaves
de fendas
e as chaves de fendas
gostam é de sair
da caixa de ferramentas
como se de uma viagem
se tratasse

terapias não convencionais

Os netos curam tudo

domingo, 5 de julho de 2015

triângulos

que coisa mais coisa me disseste
querias falar do sol
e acabaste por falar da terra
como se fosse imunda
repleta de buracos e
bolas perdidas
mas não o é
o tempo?
a terra está à mão de semear
por isso os dedos
são tão importantes,
as mãos
e a família
à mesa
sentada para não estar de pé
em cima de cadeiras
com talheres à frente
guardanapos cheios de triângulos
bocas tagarelas
pedaços de pão
a limpar o prato