quinta-feira, 22 de junho de 2017

ataques de ciúmes

José usa calças e camisolas dos anos 80. O estranho daquela indumentária é que os tecidos têm bom aspecto, ao contrário dos cortes. As calças são ligeiramente à boca de sino; as camisolas largas e desproporcionais e as cores vivas e brilhantes. Um dia perguntei ao seu vizinho de secretária porque é que o José se vestia de uma forma tão desenquadrada. Parece que há duas boas razões para se apresentar ao mundo dessa forma. Herdou um armazém de roupa do avó, que era proprietário de uma rede de lojas tradicionais. Dois: desde que começou a usá-las a namorada curou-se, curou-se dos ataques de ciúmes.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

lá fora

vou só ali ver o que não está aqui. há sempre esperança lá fora

rir para dentro

o meu namorado diz que as minhas piadas o fazem rir para dentro. as dele são melhores, defende, blá, blá, recorrendo a argumentos rebuscados, porque as dele fazem rir para fora. Gosto das dele, não posso dizer o contrário, porque é a mais pura das verdades, mas gosto também das minhas. as minhas piadas engolem-se.

quem te avisa

- hey, desculpe, tem o bolso da mochila aberto.
Disse-o com firmeza. Senti que estava a ser interrompida bem no meio de um pecado XL.
- obrigada, não tinha dado conta.
Encolhi-me. Foi a forma como se dirigiu a mim. Havia sobranceria. Estaria eu a cometer um erro, a dar abertura à actuação dos bandidos. A partir dali, disseminar-se-iam que nem bactérias. Foi uma sorte ainda não me terem enfiado as mãos na mochila e levado de lá o lenço das mãos amarrotado.
Segui-o enquanto subia as escadas. Fiquei atrás dele.
Uma reviravolta. O senhor que apanha descuidados tinha duas belas nódoas redondas, uma maior do que a outra, lado a lado, nas calças, na parte lateral do rabo.
- hey, tem duas nódoas nas calças, onde se senta.
Não lhe consegui dizer.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

lisboa marroquina

o calor aperta-me mais do que a saia
que saia de mim este calor
de mim

terça-feira, 26 de julho de 2016

Ar fresco

em dias de calor, abro a janela e quero que a rua entre cá em casa
que venha ela, sem ruídos de motores,
cheiros de óleo queimado
dos novos restaurantes da vizinhança,
que venham apenas os chilreares dos pássaros
a minha gaiola é a tua gaiola

domingo, 3 de julho de 2016

partiu-lhe a asa

partiu-lhe a asa
mas ela nadou na mesma
partiu-lhe a asa
partiu-lhe a casa
partiu-lhe o vidro
partiu-lhe a dor
ao meio

sábado, 2 de julho de 2016

A3

Quando preciso de pensar
imprimo em A3
e lá vou eu mergulhar
no papel,
sem margens,
espaço liberto
de letras e vírgulas,
que branco,
finura da exactidão,
ai se o meu amigo Luís
soubesse,
deserdava-me,
claro

dobradiças

as dobradiças permitem
às portas
ser portas
sem deixarem de ser
espaço de
passagem
as dobradiças
gostam de parafusos
como os parafusos
gostam de chaves
de fendas
e as chaves de fendas
gostam é de sair
da caixa de ferramentas
como se de uma viagem
se tratasse

terapias não convencionais

Os netos curam tudo